quinta-feira, 2 de setembro de 2010

Elementos rupestres da grande metrópole (São Paulo)

Por Samuel de Jesus


No final da madrugada podemos sentir os primeiros sinais de movimento, passadas, sonâmbulos cruzam as avenidas, lotam o metrô, os primeiros sinais do despertar da cidade, o relógio dita o ritmo, é, e preciso obedecê-lo. Contagem de minutos, seres mudos, despersonalização, a massa se movimenta por todos os lados, zumbis matutinos. De repente a greve dos metroviários interrompe o ciclo, caos. Reivindicam o direito à cidade, esperam dignidade que se toma com o aumento do pão e do corpo de cristo. Engarrafamento, arteriais entupidos como a pia, todos sacam seus carros, sem rodízio e sem razão, mas a cidade não morre, somos nós que morremos nela por falta de assistência, de fome e opulência, de humildade e arrogância, de indiferença e câncer, de stress e cardiopatia, de febre e cólera, de dengue e anemia de pouco em pouco cada dia.

Na longa marginal entre os carros corredores velozes motores disparam fugindo da posição lenta ou estática que aumentam a temperatura do stress e vontade de estar a quilômetros dali. Painéis e outdoors nos vendem o que dizem ser o melhor estilo, consumidores e lobotomia, mensagens subliminares e consumo, a babel. O rio exala seu odor de podridão que atinge o asfalto ocupante da vazante que o comprime. As velhas fábricas abandonadas nos oferecem imagens de outros tempos. A nova cidade ocupa todas as frestas sobrepondo-se ao passado que pede socorro e que jamais será ouvido, pois o progresso é implacável.

No céu a ave de metal brilha virando a direita ou a esquerda do espaço aéreo. Como ele se sustenta no ar? Quantas pessoas deverão estar resignadas a este latão alado cujas turbinas vociferam. No chão, arteriais de ferro que se estendem por todo o corpo da cidade e que levam um fluxo de gente ao coração dela. Mulheres e homens vendem o que tem e o que não tem: sonhos, casas, carros, CD´S piratas, segurança, esperança, fé, amizade, sonrisal, dramas, chinelos, carmas, cocaína, comprimidos, as correntes e as algemas, a cultura e a ignorância, armas, o veneno, gasolina e cólera, alegria, a paz, o incenso e a massagem, a dor e o alívio.

China, Japão, Portugal, Itália e África, Ásia e Oceania, mosaico: budistas, judeus, evangélicos, espíritas, islã e umbanda, no bairro da liberdade o Japão está aqui, assim como a Itália está no Brás, Bexiga e Barra Funda, a grande cidade acolhedora, o mundo está nela e ela no mundo como partes indissolúveis e complementares do universo. Artéria do mundo, organismo vivo, traços de inúmeras culturas, mistura fina, sintonia mundo, a face do mundo, a casa do norte, a casa do rock ritmo conturbado, o caos gera vida, o sangue jorra, sangue sugas, parasitas, lamina que corta carne profundamente, morre e renasce assustadoramente, veloz, atroz no mesmo dia, na mesma hora segue seu ciclo.

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